segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

PASSEIO SOCRÁTICO



 
Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão. 
 
Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 
- 'Qual dos dois modelos produz felicidade?' 
 
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 
- 'Não foi à aula?' 
Ela respondeu: - 'Não, tenho aula à tarde'. 
Comemorei: 
- 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 
- 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 
- 'Que tanta coisa?', perguntei. 
- 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. 
Fiquei pensando: - 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!' 
 
Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação! 
 
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! 
- Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito.. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa? 
 
Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais... 
 
A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções - é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é 'entretenimento' ; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva.. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. 
 
Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose. 
 
Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma su­gestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor... Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse. 
 
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas... 
 
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno.... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald's... 
 
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: 'Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz'. 
 
Frei Betto 
__,_._,___
 @BRAÇOS  @PERTADOS

12 comentários:

  1. Só posso te aplaudir...É de ter pena mesmo que as crianças não tenham esse tempo...beijos,tudo de bom, linda semana!chica

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  2. Hoje, Ro, as crianças não teem tempo para serem crianças. Teem que ser tudo, menos o direito a serem aquilo que são: CRIANÇAS. Aqui é igualzinho, sem tirar nem pôr. Quanto à televisão, daqui a meia hora vou para o meu quarto ver o que relamente interessa, isto às 24 horas e daí para a frente; nos ditos horários nobres não dá nada que interesse; Ás 18, hora a que todos trabalham, dá o Portugal em direto e aí vê-se o que de bonito se realiza por este Portugal afora; depois é só desgraças, futebol, novela, etc, etc. Depois da meia noite há de novo muitas coisas interessantes. Ao Domingo é a mesma bodega. Tv para mim, só a partir das 24 horas ou então às 18, mais nada. Quanto à malhação é também igual; não é tanto, por causa do cliama. Para ter uma ideia, um professor perguntou a uma aluna, 17 o 18 anos o que ela relmente gostava de fazer; ela respondeu; " fotografia" ; aí a professora ficou toda contente por ela ter um hobby tão interessante, dado que não gostava de estudar; o contentamento durou pouco; o que ela gostava era de ficar nos cafés e que lhe tirassem fotos. Com vê, é essa a formação que se está a dar aos jovens de hoje.Bela reflexão, Rosário. Um beijinho carregadinho de amizade. Boa noite. Vou ver os meus programas e as nptícias do Brasil. Muita força, amiga!
    Mila

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  3. Rosário
    Que texto ótimo! Gosto muito de Frei Beto, gosto de sua visão sobre religião, sociedade. E olha que seu texto veio a calhar com o momento que estou vivendo, to tentando aquietar meu espírito através da meditação. Não uma meditação oriental, mas a minha meditação na qual entro em sintonia com Deus e organizo melhor meu interior. Obrigada pelo texto. Amei! Bjsssssssssssssssss

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  4. Criança já não brinca mais de roda, não sabe o que é amarelinha, não sabe cantigas de roda, não solta pipa, não brinca de pique-esconde, não sabe o que é passa-anel, não brinca de pera/uva/mçã, não ouve histórias, não lê. Culpa desse mundo moderno, de máquinas infernais e de nós mesmos. Mas ou nos acostumamos ou viveremos à margem. O que fazer ?

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  5. Vera do sulllllllll1 de março de 2011 18:54

    Boa Noite Rosário!
    O que Frei Beto descreveu é a realidade do brasileliro, tendo que engolir um lazer que é programado pensando que somos imbecis... No domingo é o top do top. As novelas então descrevem uma realidade que de verdadeira nada tem.
    Ler , frequentar uma biblioteca só por obrigação escolar ( na grande maioria).
    E as nossas crianças cada vez mais exigidas,na ocupação do tempo,pq a insegurança não permite que elas vivam como crianças...
    Aprenderão muitas coisa serão eficeintes e eficazes, mas ninguém tem a coragem de perguntar se elas são felizes....
    Lindo texto e reflexivo... Não quero isso para os meus netos ....
    Te abraço.

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  6. A Vera do Sul tem razão! Não quero isso para os meus netos e espero que o meu filho, continue como tem feito, a não ocupar demais o filhinho de 4 anos; vai pegá-lo mais cedo à escola para poder brincar em casa como criança; as atividades que teem da parte de tarde só fazem falta para as crianças que teem os pais ocupados o dia todo e não teem onde deixar os filhos; o meu filho tem quem fique com os dele, pois ele e mulher trabalham em casa,por isso o Lucas e a Eduarda podem brincar como crianças, sem ser atolados com atividades. Na escolinha há todas aquelas atividades que enchem de orgulho certos pais, mas não sei se é isso que pensam os pequeninos. Só peço é que o meu filho continue a pensar que tudo tem o seu temop e que criança feliz é aquela que vive verdadeiramente todas as fases. Um beijinho, Ro, carregadinho de amizade.
    Mila

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  7. Vera do sulllllllll4 de março de 2011 10:00

    Querida Rosário!
    Hoje é Sexta-feira, e estou passando para te desejar um lindo final de semana com muito confete de coraçãozinho e muita serpentina feita com muitos abraços.
    Que aproveites a trégua para fazer tudo o que gostas. Beijos na tua Ge que ficou e sucesso na que foi viver a vida.
    Para ti muitos, muitos abraços e beijos.

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  8. Ro, passei para te deixar um grande beijinho e desejar um bom fim de semana. Espero que estejas bem e que as saudades da tua filhota ainda não estejam a apertar muito. Espero que lhe tenhas dado o meu contato para que ela me ligue se precisar de alguma coisa. Força, amiga!
    Mila

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  9. Vera do sulllllllll5 de março de 2011 13:31

    Olá queridona!
    Passei para te desejar um lindo fim de semana.
    aproveita bastante....
    Te abraço

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  10. Hoje, dia internacional da mulher, não podia deixar de vir aqui dar os parabéns à mulher mais forte e guerreira que conheci. Um grande beijinho, Ro, carregadinho de orgulho por tê-la conhecido. Fica bem, amiga
    Mila

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  11. Vera do sulllllllll8 de março de 2011 11:35

    Olá Rosário !
    Para VOCÊ que é uma linda mulher, um círculo pleno com poder de criar, nutrir e transformar, cuja força não está somente no coração e na mente, mas na forma como você vence os obstáculos do dia a dia um grande abraço e o meu desejo enorme de muita saúde e felicidade.
    Parabéns,pela grande mulher que és.
    Te abraço muito.

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